CLARICE LISPECTOR EM CRÔNICA SOBRE O PROGRAMA DO CHACRINHA


Incrível, mas quanto mais e tudo o que descubro desta mulher só enaltecem a admiração que lhe tenho.
Tudo. Absolutamente tudo o que vem dela me fascina.

O texto que lhes apresento a seguir pode ser lido no livro "A Descoberta do Mundo", e é uma de suas crônicas na qual se refere a José Abelardo Barbosa de Medeiros, mais conhecido como Chacrinha, apresentador de programas de auditório de enorme sucesso da década de 1950 a 1980.

Capa do livro
É perceptivelmente clara sua crítica ao "Cassino do Chacrinha", por sinal, um dos programas mais conhecidos, copiados e imitados até os dias de hoje.


Numa escrita sem temor e temperada por acidez, no texto publicado em 1967, a escritora manifesta claramente e com maus olhos seu ponto de vista a respeito de programações televisivas que se sustentam ao tirarem proveito das pessoas que levam uma vida miserável, e que além de as exporem ao ridículo, ainda as fazem publicamente, e eu mesmo, diria hoje, vítimas de bullying.

Abelardo Barbosa, o Chacrinha

Chacrinha

De tanto falarem em Chacrinha, liguei a televisão para seu programa que me pareceu durar mais que uma hora.

E fiquei pasma. Dizem-me que esse programa é atualmente o mais popular. Mas como? O homem tem qualquer coisa de doido, e estou usando a palavra doido no seu verdadeiro sentido. O auditório também cheio. É um programa de calouros, pelo menos o que eu vi. Ocupa a chamada hora nobre da televisão. O homem se veste com roupas loucas, o calouro apresenta o seu número e, se não agrada, a buzina do Chacrinha funciona, despedindo-o. Além do mais, Chacrinha tem algo de sádico: sente-se o prazer que tem em usar a buzina. E suas gracinhas se repetem a todo o instante — falta-lhe imaginação ou ele é obcecado.

E os calouros? Como é deprimente. São de todas as idades. E em todas as idades vê-se a ânsia de aparecer, de se mostrar, de se tornar famoso, mesmo à custa do ridículo ou da humilhação. Vêm velhos até de setenta anos. Com exceções, os calouros são de origem humilde, têm ar de subnutridos. E o auditório aplaude. Há prêmios em dinheiro para os que acertarem através de cartas o número de buzinadas que Chacrinha dará; pelo menos foi assim no programa que vi. Será pela possibilidade da sorte de ganhar dinheiro, como em loteria, que o programa tem tal popularidade? Ou será por pobreza de espírito de nosso povo? Ou será que os telespectadores têm em si um pouco de sadismo que se compraz no sadismo de Chacrinha?

Não entendo. Nossa televisão, com exceções, é pobre, além de superlotada de anúncios. Mas Chacrinha foi demais. Simplesmente não entendi o fenômeno. E fiquei triste, decepcionada: eu quereria um povo mais exigente.”

Crônica escrita em 7 de outubro de 1967, publicada no mesmo ano pelo Jornal do Brasil.

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